Comunicação e resistência da Folia de Reis da cidade de Sorocaba/ São Paulo
DOI:
https://doi.org/10.5212/Resumen
Este ensaio fotográfico apresenta a Folia de Reis realizada no dia nove de janeiro de 2025, na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. O catolicismo popular, nascido provavelmente do distanciamento da presença de igrejas e sacerdotes nos rincões afastados nos primeiros tempos da nossa colonização, fez surgir rituais e práticas oriundas da miscigenação de tradições diversas, como as dos cultos à natureza (comumente chamadas de paganismo) da Europa, com cultos de ancestralidade e, também, das forças naturais entre pessoas africanas e indígenas nativas da América. Dentre as mais variadas devoções que se constituem em grupos como esse, estão as Folias de Reis que fazem referência aos personagens bíblicos citados no Evangelho de Mateus como Magos do Oriente. A falta de informações mais precisas sobre esses personagens deu margem à formação de um imaginário que, ao preencher as lacunas do texto bíblico, deu aos Magos o título de Reis, nomeou-os de Gaspar, Melchior e Baltazar; bem como os diferenciou por sua cor epidérmica, conforme apresentam Cavalheiro (2013), Vieira (1989) e Calafiori, Souza (1993).
A prática sociocultural consiste na saída de grupos que visitam casa em casa, ou sítio em sítio (se na zona rural) e “têm a sua razão de ser em louvar, através de cantigas e versos, o nascimento de Cristo e a adoração dos Reis Magos” (Vieira, 1989, p. 6). Desse modo, os grupos reproduzem a distância até encontrar o local onde nascera Jesus. Em geral, os grupos se estruturam de maneira a ter certo número de participantes, o qual varia muito de localidade para localidade, distribuídos de acordo com suas funções. Cavalheiro (1999) destaque que, em Sorocaba, no interior paulista, possui um líder (chamado de Embaixador ou Mestre), um contramestre, um bandeireiro, os Bastião (chamados em outros lugares de Mateus, Palhaços ou Marungos) e os cantadores e instrumentistas, divididos por instrumentos musicais e por vozes: tipe, contratipe, tala, contratala etc. Os foliões também fazem uso de vestimentas, adornos e acessórios que, para além de enfeitar a manifestação, podem ser compreendidos como objetos de comunicação popular, uma vez que carregam significados relacionados a religiosidade, como é o caso das fitas inseridas em instrumentos musicais. Em entrevista realizada com participantes de Folias de Reis praticadas em diferentes regiões do Brasil, constatou-se que há convergência e divergências nos significados, o que revela que a prática carrega as especificidades de cada localidade. Entretanto, alguns elementos se aproximam, como é o caso da fita azul que representa a Virgem Maria.
Observa-se, portanto, que cada elemento da Folia de Reis trata de comunicar significados que podem ser compreendidos a luz da folkcomunicação, teoria que se centra especificamente nas práticas e estratégias comunicacionais das classes populares a partir da mediação da cultura. De acordo com Beltrão (1980 p. 28), o que caracteriza os processos folkcomunicacionais é que “as mensagens são elaboradas, codificadas e transmitidas em linguagens e canais familiares à audiência, por sua vez, conhecida psicológica e vivencialmente pelo comunicador, ainda que dispersa”. Nesse sentido, os elementos das Folias de Reis carregam significados específicos, e que são compreendidos, especialmente, pelos participantes das manifestações. No caso das fitas, os significados escapam, até mesmo, aos pesquisadores, o que caracteriza ainda mais os objetos como característicos da comunicação religiosa dos grupos populares envoltos as práticas de folia.
O ensaio a seguir buscou destacar as pessoas que participam da Folia de Reis da cidade de Sorocaba, bem como os objetos que compõem a manifestação. Para tanto, acompanhamos a festa em dois momentos, sendo às 11h da manhã na apresentação do grupo na Praça Coronel Fernando Prestes, localizada no centro de Sorocaba, ocasião da desmontagem do presépio. Em seguida, acompanhamos o cortejo dos foliões no bairro de Vila Formosa de Sorocaba, que dá nome ao grupo de foliões “Companhia de Reis da Vila Formosa”, das 14h às 19h. Pretende-se, com este ensaio, apresentar a Folia de Reis sorocabana como manifestação comunicacional e popular que resiste ao tempo.
Referencias
BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: A comunicação dos marginalizados. São Paulo: Editora Cortez, 1980.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 2007.
CAVALHEIRO, C. C. Folclore em Sorocaba. Sorocaba (SP): Prefeitura Municipal de Sorocaba, 1999.
CAVALHEIRO, C. C. Nos passos da Folia de Reis. Sorocaba (SP): Crearte, 2013.
CAVALHEIRO, C. C. Folia de Reis em Sorocaba. Sorocaba (SP): Teaser Design, 2007.
CALAFIORI, L. F., SOUZA, J. A. de. Manual de Folia de Reis. São Paulo: Editora Resenha, 1993.
MARINHO, Neide. Folias de Reis – múltiplos territórios. Curitiba: Appris, 2015.
MORAIS FILHO, M. Festas e tradições populares do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2002.
VIEIRA, S. M. Folia de Reis. Rio de Janeiro: UFRJ, 1989.
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