Pauta Geral abre chamada para o dossiê "Territórios para além da pauta jornalística"

2026-07-10

Editores: Adriana Santana (UFPE), Frederico de Mello Brandão Tavares (UFOP) e Karina Gomes Barbosa (UFOP)

Prazo de submissão: 10 de julho a 7 de setembro de 2026

Aceites dos trabalhos aprovados: 13 de outubro de 2026

Publicação do dossiê: Dezembro de 2026

Submeter o trabalho no seguinte link: https://revistas.uepg.br/index.php/pauta/submission 

Seguir todas as orientações presentes na aba de submissão: https://revistas.uepg.br/index.php/pauta/about/submissions 

A discussão contemporânea sobre a relação entre jornalismo e contextos locais ultrapassa a histórica caracterização de um fazer voltado para a prestação de serviços ou para uma proximidade geográfica como valor-notícia. Ainda que dados recentes (Newman, 2025) reforcem o interesse do público no noticiário local, sobretudo para notícias de política, crime trânsito, obituários; e que tal busca por informação tenha “migrado” para plataformas ou apps especializados, é preciso, desde um olhar dos estudos de jornalismo, atentar-se para o que está além da cobertura de agendas locais, ou como pano de fundo de pautas sobre cultura, clima e comércio, áreas do jornalismo de serviço que já foram dominadas pela mídia tradicional presente em zonas populacionais de distintas características. 

Hoje, deve-se ter em conta como a presença do jornalismo em distintos territórios está envolta por uma pluralidade de tempos e espaços que, muito mais que objeto de uma cobertura, incide sobre as maneiras com as quais as práticas informativas se moldam e se alinham. Não apenas do ponto de vista editorial, mas de acordo com a singularidade de relações que estão desorganizadamente dispostas e constituem o comum dentro de certos limites e fronteiras. Como afirma Rogério Haesbaert (2010, p. 23), “todo território é, ao mesmo tempo e obrigatoriamente, em diferentes combinações, funcional e simbólico, pois as relações de poder têm no espaço um componente indissociável tanto na realização de ‘funções’ quanto na produção de ‘significados’”. Entender o jornalismo neste contexto, implica, portanto, situar a circularidade e a globalidade que envolvem suas materializações diante do mundo que o cerca. 

Nesse viés, pensar os territórios como fenômenos relacionais (Haesbaert, 2021), mas também conceitualmente, ajuda a problematizar como o jornalismo se abre (ou não) para o vivido em disputas de poder, experiências individuais e coletivas, acontecimentos e assuntos cujas dinâmicas próprias tensionam modelos estanques de representação do mundo ou hierarquias sociais e noticiosas historicamente definidas. O território, mais que um certo lugar, corresponde a fluxos sociais, culturais, políticos, econômicos, históricos, ambientais, comunicacionais, informacionais. Como propõe Suely Rolnik, territórios podem ter conformações relacionais, provisórias. Neles, são produzidas experimentações, ensaios e tentativas, oferecendo acolhimentos que favorecem modos de vida ousados, distintos e desviantes dos hegemônicos. “Tais experiências coletivas tornam mais possível o trabalho de travessia do trauma resultante da operação perversa do regime colonial-capitalístico, que confina as subjetividades nas formas e valores dominantes” (Rolnik, 2018, p. 198). 

O jornalismo, desde esse entendimento, não é um ator externo, mas integra os contextos e com eles interage dentro de múltiplas durações e recortes espaciais que se encontram em movimento, tendo a instabilidade e a disputa como elementos constituintes na forma de experimentar a vida e compreender o mundo (Simas; Rufino, 2019). Erigido sobre o posicionamento ideológico, político e econômico inaugurado com o fenômeno histórico da colonização , o jornalismo “moderno” se inscreve em uma historicidade na qual um centro europeu civilizado conhece um Outro, localizado na periferia e em tudo diferente de si, espalhando-se e transmutando-se ao longo do tempo a partir de atualizadas relações entre “colonizadores” e “colonizados” (Carvalho, 2023). Segundo Olarte Quiroz (2023, p. 269, trad. nossa), isso se reflete na construção de uma “identidade a partir do reconhecimento do jornalismo técnico/tecnológico vinculado à imprensa e à sua capacidade de gerar um produto idêntico e amplamente divulgado”.

Pensar o jornalismo desde o mundo majoritário, com destaque para a América Latina, na perspectiva territorial, implica compreender o território ainda como espaço de extrativismos e roubo colonial-capitalista (Segato, 2018), que se desdobram no tempo e, na contemporaneidade, agridem as raízes comunitárias e “coisificam a vitalidade pachamâmica” (Segato, 2018, p. 12, trad. nossa). Implica, também, pensar possibilidades do jornalismo a partir de rotas de fuga; de programas de desordem absoluta e da imaginação (Vergès, 2023), além de outras táticas para descolonização institucional.   

A partir desse ponto de partida, o Dossiê “Territórios para além da pauta jornalística” propõe, por meio de contribuições inéditas e/ou originais, discutir como dinâmicas territoriais em diversas conformações, ao mesmo tempo em que são lidas por práticas jornalísticas, configuram essas mesmas práticas, deslocando matrizes informativas consolidadas; des ou reterritorializando o próprio fazer noticioso ou a identidade profissional; desafiando as matrizes coloniais sobre as quais o jornalismo se assenta; interpelando lógicas hegemônicas e fundamentos do campo. Não propomos, aqui, apenas um olhar para fenômenos contemporâneos, mas também para objetos do passado, arquivos; ou para problemas que colocam em cena questões sobre o futuro do campo jornalístico desde resistências, desigualdades, insurreições (Rolnik, 2018) e conflitos que “aterram” o compromisso de transformação da vida que acompanha (ou pelo menos deveria acompanhar) o jornalismo. Atualizando-o ou sobre ele reivindicando um agir coerente e crítico com sua inserção no cotidiano. 

O Dossiê convida autoras e autores a colaborarem com textos (artigos ou ensaios) e outros materiais (entrevistas ou resenhas) advindos de pesquisas e estudos relacionados a alguns eixos temáticos:

  • Jornalismo e conflitos socioterritoriais;
  • Saberes tradicionais e diálogos com as práticas jornalísticas;
  • Coberturas sobre tragédias, desastres e crimes socioambientais e climáticos;
  • Produções noticiosas independentes desde territórios marginalizados;
  • Leituras críticas sobre práticas capitalistas e extrativistas e sua presença na imprensa;
  • Subjetividades e afetos na relação com territórios em representações jornalísticas;
  • A relação do jornalismo com corpos-territórios na contemporaneidade.

 

Referências

CARVALHO, Carlos Alberto de. O jornalismo, ator social colonizado e colonizador. Curitiba: Editora CRV, 2023. 

HAESBAERT, Rogério. Território e multiterritorialidade: um debate. GEOgraphia, Niterói, v. 9, n. 17, 2010. Disponível em: https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13531

HAESBAERT, Rogério. Território e descolonialidade: sobre o giro (multi) territorial/de(s)colonial na América Latina. - 1a ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO; Niterói: Programa de Pós-Graduação em Geografia; Universidade Federal Fluminense, 2021.

NEWMAN, Nic et al. Reuters Institute digital news report 2025. [S.l.]: Reuters Institute for the Study of Journalism, 2025. Disponível em: <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025>. Acesso em: 1 jun. 2026.

OLARTE QUIROZ, Karina. Decolonizar el periodismo boliviano, una necesidad urgente. Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación, [S. l.], v. 1, n. 152, 2023. DOI: 10.16921/chasqui.v1i152.4836. Disponível em: https://revistachasqui.org/index.php/chasqui/article/view/4836

ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2018.

SEGATO, Rita. Contra-pedagogías de la crueldad. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2018.

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. Mórula: 2019.

VERGÈS, Françoise. Descolonizar o museu: programa de desordem absoluta. São Paulo: Ubu, 2023.