Fotoetnografía: exvotos a los santos populares en el cementerio de São João Batista, en Manaos/AM
DOI:
https://doi.org/10.5212/RIF.v.23.i51.0011Resumen
O presente ensaio fotoetnográfico tem como objetivo apresentar registros de ex-votos depositados sob os túmulos de quatro santos populares no cemitério São João Batista, localizado na Avenida Boulevard Álvaro Maia, s/nº, esquina com a Praça Chile – no bairro Adrianópolis, zona Sul de Manaus.
Santa Etelvina, Teresa Cristina, Rabino Shalon Emanuel Muyal e Delmo Pereira, canonizados pela população manauara, apesar do passar das décadas após suas mortes recebem homenagens com cartas, uniformes escolares, cadernos, flores, velas, terços, placas, entre outros elementos como práticas folkcomunicacionais de ex-voto, segundo definição de Beltrão (2004) nos respectivos jazigos perpétuos.
A mais popular entre todos é Etelvina D' Alencar (1884-1901), natural de Boa Vista do Icó (CE), filha de Cosmo José D' Alencar e Rosalinda D' Alencar. Ambos se estabeleceram em atividade de produção rural na Colônia Campos Salles, onde a jovem foi assassinada aos 17 anos de idade pelo ex-noivo, o jovem baiano José Francisco Ribeiro que logo depois se suicidou. À época o crime ganhou notoriedade ao ser noticiado nos jornais da região, e a vítima acabou enterrada no mesmo local do assassinato. No ano de 1964, a prefeitura de Manaus construiu um jazigo no cemitério São João Batista e desde então passou a receber visitas e de forma orgânica pessoas passaram a lhe atribuir milagres.
Outra santidade popular bastante visitada é a menina Teresa Cristina, (1964-1971), pessoa mais nova dentre os outros “santos do cemitério” faleceu em acidente de avião nas proximidades de Manaus aos sete anos de idade, onde somente sua mãe sobreviveu. Desde então, recebe muitas homenagens com pais acompanhados de seus filhos.
Dos maiores curiosos é o conhecido “Santo Judeu” Rabino Shalon Emanuel Muyal, que veio de Salé, no Marrocos, para Manaus, em 1908, para ajudar no desenvolvimento da comunidade judaica da capital amazonense. No entanto, sua experiência na cidade foi rápida, pois o rabino foi acometido por uma doença, vindo a falecer dois anos após sua chegada, em 1910. O santo, desde as primeiras décadas do século XX, é detentor de vários milagres e graças alcançadas que são vistas em seu túmulo por meio de placas. E apesar de existir um cemitério de judeus, o Rabino segue enterrado na parte geral, entre pessoas de diversas religiões.
Entre o menos visitado atualmente, é Delmo Pereira (1933-1952), assassinado na Colônia Campos Salles em 1952, com envolvimento de 27 pessoas. O crime considerado um dos mais controversos da história de Manaus é apontado como consequência de uma série de ações criminosas de Delmo, na época, bem como a tentativa de assassinato do vigia da empresa de seu pai e o assassinato da única testemunha, o taxista que o levara até a empresa. Diante disso, os motoristas de Manaus realizaram uma caçada atrás de Delmo como ato de vingança. Ele foi torturado pelos taxistas, com o ventre aberto do umbigo ao pescoço. A morte do jovem gerou a revolta da população, sobretudo dos estudantes. No seu túmulo encontram-se as inscrições “Estudante Mártir”. Apesar de ser considerado um santo popular, atualmente, não se encontram mais tantos objetos como forma de ex-voto em tom de veneração, assim como todos os outros.
Para o entendimento da categoria de cada dos santos populares, partimos do pressuposto teórico do folclorista argentino Felix Coluccio (1994) que categorizou cada grupo. De acordo com o autor, no primeiro estão os iluminados, constituído por pessoas que na sua vida terrena dedicaram-se às atividades de caridade e foram consideradas virtuosas; a segunda é formada por pessoas vítimas de morte violenta ou injusta. Dela fazem parte três grupos: o primeiro, constituído pelos anjos, isto é, crianças que faleceram ainda na primeira infância, vítimas de abandono ou de outras formas de desatendimento; e por último, um outro grupo constituído de vítimas inocentes, adolescentes e adultos espancados, estuprados e assassinados; nesta categoria é elevado o número de mulheres.
Diante do exposto, compreendemos a partir deste ensaio que o culto a pessoas mortas, ou “santos de cemitério” (Maués, 2005), “almas milagrosas,” “santos marginais” ou ainda “mortos milagrosos” (Freitas, 2006), demonstram a necessidade do ser humano de se conectar com algo divino ou sobrenatural, na busca por uma melhoria de vida, e uma das formas como mensagem dos devotos aos santos, são os ex-votos, que segundo Benjamim (2022) construídos aos modos de subjetividades dos indivíduos enfatiza os traços próprios do seu sofrimento e da graça alcançada, realçando aspectos socioculturais relacionados à saúde, educação, sofrimento, fé, religião e sociedade.
Para otimizar a representação subjetiva do simbolismo dos ex-votos aos santos populares, utilizamos a Fotoetnografia como técnica, posto que se trata de uma abordagem que emprega a fotografia como uma forma de narrativa visual imersiva/participativa, permitindo registrar e transmitir informações culturais sobre o objeto ou grupo pesquisado, ajudando o leitor a compreender suas características e particularidades. Para tanto, exploramos planos de imagem abertos (Plano Geral) e fechados (Plano Médio e/ou Close) para valorizar tanto a ambiência quanto os detalhes dos ex-votos dispostos nos túmulos, conforme a narrativa visual a seguir.
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