Máquina de atualizar o tempo:

usos políticos do passado do sertão no mundo contemporâneo

Autores

Resumo

Existem passados que são bastante atualizados, sobretudo em contextos de comemoração, quando alguns acontecimentos figuram centralmente em pautas do debate público. A proposta deste artigo é refletir sobre usos políticos do passado do sertão em “era da comemoração” no mundo contemporâneo que emerge no final do século XX. A partir da metáfora da comemoração como máquina de atualizar o tempo, a discussão é estruturada em três partes que se entrecruzam entres jogos de escalas locais e globais. A primeira apresenta marcas de tempos comemorativos no presente, ressaltando aspectos de eventos, marcos e (des)construções da memória. A segunda aprofunda reflexão sobre tempos do sertão nordestino brasileiro, com atenção a releituras do cangaço, a fim de destacar traços de patrimônios culturais reivindicados, dissonantes e contestados. A terceira analisa estes tempos propensos às reavaliações em cenário específico, pautando situações de convergências, divergências e (con)fusões da memória. Com base em debates pertinentes para a história do tempo presente, a contribuição epistêmica do trabalho é suscitar questões que dão a ver distintos mecanismos para lidar com o passado no presente. Daí surgem notas sobre o valor heurístico que elas podem ter para a pesquisa histórica.  

Referências

AGUILAR, Nelson Aguilar. (org.). Mostra Redescobrimento. Arte Popular. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
ALBUQUERQUE Jr., Durval M. Feira dos Mitos: fabricação do folclore e da cultura popular (Nordeste, 1920-1950). São Paulo: Intermeios, 2013.
ALBUQUERQUE Jr, Durval M. Distante e/ou do instante: sertões contemporâneos, as antinomias de um enunciado. In: FREIRE, Alberto (org.). Culturas dos Sertões. Salvador: Edufba, 2014.
ARAÚJO, Valdei; PEREIRA, Mateus. Atualismo: como a ideia de atualização mudou o século XXI. Vitória: Milfontes; Mariana: SBTHH 2019.
ARAÚJO SÁ, Antônio Fernando. O Cangaço nas batalhas da memória. Recife: Ed. Universitária UFPE, 2011.
ARAÚJO SÁ, Antônio F.; RAMOS FILHO, Vagner S. (Org.) Dossiê 80 anos da morte de Lampião: releituras do cangaço. Ponta de Lança: Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura, v. 12, n. 22, 2018
ARAÚJO SÁ, Antônio F. Entre Sertões e Representações. São Paulo: Liberars, 2020.
AREND, Silvia M. F. Um país impresso: História do Tempo Presente e revistas semanais no Brasil (1960-1980). Curitiba: CRV, 2014.
AVILA, Arthur; NICOLAZZI, Fernando; TURIN, Rodrigo (Org.). A História (in)Disciplinada: Teoria, ensino e difusão de conhecimento histórico. Vitória: Milfontes, 2019, p. 27.
BARBALHO, Alexandre. A modernização da cultura. Políticas para o Audiovisual nos Governos Tasso Jereissati e Ciro Gomes (Ceará, 1987 - 1998). Fortaleza: Imprensa Universitária, 2005.
BAUER, Caroline S.; NICOLAZZI, Fernando F. O historiador e o falsário: Usos públicos do passado e alguns marcos da cultura histórica contemporânea. Varia Historia, v. 32, p. 807–835, 2016.
BEVERNAGE, Berber. Caminhos para a Teoria da História: filosofia das historicidades e a questão da justiça histórica. Vitória: Milfontes, 2020.
BEVERNAGE, Berber. Tempo e Justiça: História, Memória e Violência de Estado. Vitória: Milfontes, 2018.
BURKE, Peter. História como Memória Social. In: Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
CANDAU, Jöel. Bases antropológicas e expressões mundanas da busca patrimonial: memória, tradição e identidade. In: Memória em Rede, Pelotas, v.1, n.1, jan/jul, 2009.
CANDAU, Jöel. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2012.
CARVALHO, Aline V.; MENEGUELLO, Cristina. (Org.). Dicionário temático de Patrimônio: debates contemporâneos. Campinas: Unicamp, 2020.
CATROGA, Fernando. Memória, História e Historiografia. Coimbra: Quarteto Editora, 2001.
CHAUÍ, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000, p. 7 e 8.
CHUVA, Márcia; NOGUEIRA, Antonio. G. R. (Org.). Patrimônio Cultural: Políticas e perspectivas de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X / Faperj, 2012;
CLEMENTE, Marcos Edilson de. Lampiões acesos: o cangaço na memória coletiva. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2009;
FARIA CRUZ, Heloisa de & CUNHA PEIXOTO, Maria do Rosário. Na oficina do historiador: conversas sobre história e imprensa. In: Projeto História, São Paulo, n.35, p. 253-270, dez. 2007.
FENTRESS, James & WICKHAM, Chris. Memória Social. Lisboa: Editorial Teorema, 1992.
FRANCO, Marina; LEVÍN, Florencio. (Org.) Historia reciente: Perspectivas y desafios para un campo en construcción. Buenos Aires: Editorial Paidós, 2007.
DOSSE, François. Renascimento do acontecimento: um desafio para o historiador: entre Esfinge e Fênix. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
GONDAR, Jô; Dodebei, Vera. (Orgs.) O que é memória social? Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria; Unirio, 2005.
GRUSPAN, Elise J. Lampião, senhor do sertão: vidas e mortes de um cangaceiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
GUIMARÃES, Manoel L. Salgado. O presente do passado: as artes de Clio em tempos de memória. In: ABREU, Marta. SOHIET, Raquel; GONTIJO, Rebeca. Cultura política e leituras do passado. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2007, p. 27.
HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiência do tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013, p. 183.
HARVEY, David. Do administrativismo ao empreendedorismo: a transformação da governança urbana no capitalismo tardio. In: _____. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. 1a ed. Rio de Janeiro: Contraponto: Museu de Arte do Rio, 2014, p. 195.
HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios (1875-1914). 8ª ed. Paz e Terra: Rio de Janeiro, 2003.
JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. Madrid: Siglo XXI de España Editores S.A. 2002.
JELIN, Elizabeth; Vinyes, Ricard. Cómo será el Pasado: uma conversación sobre el giro memorial. Barcelona: Ned Ediciones, 2021.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 2013.
KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014, p. 9.
MELLO, Frederico P. Guerreiros do sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004
MUDROVCIC, María Inés. Políticas del tiempo, políticas de la historia: ¿quiénes son mis contemporáneos? Artcultura, v. 20, n. 36. 2018.
NOGUEIRA, Antonio Gilberto R. O campo do patrimônio cultural e a história: itinerários conceituais e práticas de preservação. Antíteses, v.7, n.14, Londrina, 2014
NOGUEIRA, Antonio. G. R.; RAMOS FILHO, V. S. Patrimônio e Cultura Popular. In: Dicionário temático de Patrimônio: debates contemporâneos. Campinas: Unicamp, 2020, p. 177-180.
NORA, Pierre. Pierre Nora en Les lieux de mémoire. Montevideo: Trilce, 2008.
NORA, 2008, p. 175 apud GONÇALVES, Janice. Pierre Nora e o tempo presente: entre a memória e o patrimônio cultural. Historiae, Rio Grande, v.3, n.3, p. 27-28, 2012.
OZOUF, Mona. A festa Sob a Revolução Francesa. In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre. História Novos Objetos. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1995.
PAOLI, Maria C. In: SÃO PAULO (cidade). O Direito à Memória: Patrimônio Histórico e Cidadania. São Paulo: DPH, 1992.
PEREIRA, Matheus H. F.; MATA, Sérgio da. Introdução: transformações da experiência do tempo. In: VARELLA, Flávia F. (org.). [et al]. Tempo presente & usos do passado. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.
PASAMAR, Gonzalo. El “uso público de la história”, un dominio entre la urgencia y el desconcierto. In: FORCADELL, C. et. All. (orgs.). Usos públicos de la Historia y política de la memoria. Zaragoza: Prensas Universitarias de Zaragoza, 2004.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento e Silêncio. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989.
RAMOS FILHO, Vagner S. “Século Virgulino”: o cangaço nas (con)fusões da memória entre comemorações de Lampião no tempo presente. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2016.
RAMOS FILHO, Vagner S. “Lampião mal-dito: o gênero em narrativas de um mito em disputa. GÓIS, Cecília; LIMA, Marília. (Org.). Diversidade e Resistência: Coletânea Literária LGBT. Fortaleza: Aliás - Selo Editorial, 2018, v. 1, p. 147-162.
REGINA DE LUCA, Tania. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org). Fontes históricas. 3ª ed. São Paulo: Contexto, 2011.
RODRIGUES DA SILVA, Helenice. ‘Rememoração’ / ‘Comemoração’: as utilizações sociais da memória. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 22, nº 44, 2002.
ROSENTAL, Paul-André. Construir o ‘macro’ pelo ‘micro’. In: REVEL, Jacques (Org.). Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998.
ROUSSO, Henry. Sobre a história do tempo presente: entrevista com o historiador Henry Rousso. In: AREND, Silvia M. F. & MACEDO, Fábio. Tempo e Argumento, v.1, n.1, Florianópolis, 2009.
SÁ, Maria Elisa Noronha. O sertão: território da imaginação social do Brasil. BOTELHO, André; STARLING, Heloisa. República e Democracia: impasses do Brasil Contemporâneo. Belo Horizonte: UFMG, 2017.
SARLO, Beatriz. Cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.
SCHIAVINATTO, Iara Lis. Entre celebrações e exposições: algumas visibilidades em jogo nos Descobrimentos (1990-2000). Práticas da História, Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past, n.º 8, 2019.
SANTOS, Evandro. Ensaio sobre diversidade historiográfica: como escrever (e reconhecer) histórias dos sertões a partir de novas e “velhas” epistemologias. Sæculum, 2019.
SANTOS, Pedro Afonso C.; NICODEMO, Thiago; PEREIRA, Matheus Henrique. Historiografias periféricas em perspectiva global ou transnacional: eurocentrismo em questão. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 30, n. 60, 2017.
TRAVERSO, Enzo. O passado, modos de usar: história, memória e política. Lisboa: edições Unipop, 2012.
WIESEBRON, Marianne L. Historiografia do cangaço e estado atual da pesquisa sobre o banditismo a nível nacional e internacional. In: Ciência & Trópico, Recife, vol. 24, n. 2, p. 417-444, 1996.
WINTER, Jay. A geração da memória: reflexões sobre o “boom da memória” nos estudos contemporâneos de história. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). Palavra e imagem: memória e escritura. Chapecó: Argos, 2006, p. 67-90.

Downloads

Publicado

2022-06-24

Como Citar

RAMOS FILHO, V. S. Máquina de atualizar o tempo:: usos políticos do passado do sertão no mundo contemporâneo . Revista de História Regional, [S. l.], v. 27, n. 1, 2022. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/rhr/article/view/20002. Acesso em: 12 ago. 2022.

Edição

Seção

Dossiê História do Tempo Presente: entre fronteiras regionais, políticas e cultu